Sexo

João Luiz Vieira

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Exposição polêmica no MAM
Exposição polêmica no MAMFoto: Divulgação

Há nove anos, o artista plástico Maurício Ianês apresentou "A Bondade de Estranhos" na 28ª Bienal de Artes de São Paulo. Ele perambulou pelo prédio da mostra completamente nu, por 12 dias, enquanto propunha entender quais reações seu corpo desnudo incitava: de estranhamento a oferta de roupas e alimentos, muitos deles entregues por crianças da rede pública e particular de ensino. Não filmaram crianças tocando em seu corpo, nem acusaram a Bienal nem o performer de pedofilia.

Citar esse episódio, e não os muitos do passado, é porque não tem uma década sequer e, nesses poucos meses que nos separam daquele ano, somos testemunhas de um movimento que tenta interditar o livre arbítrio, talvez um de nossos maiores instrumentos de conquista da autoconsciência, tanto de artistas quanto do público que decide compartilhar com eles alguma expressão artística. De-ci-de.

No mês passado, a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, no centro cultural de uma agência do banco Santander em Porto Alegre (RS), foi cancelada. Alegaram "vilipêndio a valores cristãos", "estímulo à pedofilia e à zoofilia". O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que é do PRB, braço político da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), tenta impedir que a mostra aporte no Rio de Janeiro.

Ainda no mês passado, uma leitura interpretativa da obra "Bicho", de Lygia Clark (1920-1988, dessa vez no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), de São Paulo, provocou reações virulentas contra a performance do bailarino e coreógrafo Wagner Schwartz . Acusaram o museu de estímulo à pedofilia porque uma mãe DECIDIU que a filha poderia tocar nos pés do artista.

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O corpo nu em si não é (ou não deveria ser) visto como sexual. A sexualidade responde a pulsões e um indivíduo sem roupa necessariamente não provoca (ou não deveria provocar) isso. Do ponto de vista, racional e lógico, mas há muitos tons de cinza nesta afirmação porque mexe com repertórios individuais de aprendizados e/ou vivências.

Há muito pouco tempo histórico, um tornozelo desnudo de uma mulher era um escândalo, mas por que isso? Conceitos morais e éticos são temporais e culturais, e são comumente revistos, nem sempre para avanços, mas, sim, propondo recuos sobre o estabelecido. É o que parece ser o movimento atual e, praxe, artistas são os primeiros a sofrerem tentativas de interdição.

A sociedade está tão destemperada e inflamada que nem se permite ao básico: entender os contextos. Compra versões e parte para a luta armada a partir de referências que foram espalhadas como se pólvora. Esse tipo de problematização, claro, não é nova, mas eu só sei de uma coisa: era muito mais divertido ser jovem nos anos 1980, apesar da luta por democracia, da guerra fria e da aids. O medo maior pode está a caminho: a distopia, quando se vive em condições de extrema opressão. Isso lhe interessa?

* João Luiz Vieira, 47, é jornalista, roteirista, letrista e educador sexual, ou sexólogo, como preferir. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas). É sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e tem um canal no YouTube: sexo_sem_medo.

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