Roger Vieira recorda realidade humilde, peixes coloridos e lembranças difíceis dos tempos de menino morador às margens de canal de Maranguape I, bairro de Paulista
Roger Vieira recorda realidade humilde, peixes coloridos e lembranças difíceis dos tempos de menino morador às margens de canal de Maranguape I, bairro de PaulistaFoto: Divulgação

No mar de memórias da infância, o quadrinista Roger Vieira pesca as duas narrativas que compõem "Aterro", sua nova história em quadrinhos, lançada localmente na Bienal Geek, e agora nacionalmente no Festival Internacional de Quadrinhos, realizado em Belo Horizonte, em Minas Gerais, até este domingo (3). Um mar composto por um canal transbordante, uma realidade humilde, peixes coloridos e memórias difíceis.

É nos detalhes de “Aterro” que as memórias se misturam com o fantástico. Dono de um traço certo, de quem domina perfeitamente o nanquim, Roger usa o imaginário infantil para explorar as nuances de suas recordações como um menino morador de Maranguape I, bairro de Paulista. Nas margens de um canal sempre em quase para transbordar, a história se estende às ruas da periferia, às casas humildes.

Leia também:
Anti-heroína da HQ "Nimona" questiona o papel do vilão e dos rótulos
HQs digitais e o incerto mercado que ainda tem muito o que crescer
Adaptações de quadrinhos brasileiros chegam ao cinema


O canal poluído, elemento que permeia a HQ, é dono de uma infinidade de possibilidades — às quais a criança, personagem principal que reencarna o próprio Roger, explora através de seu olhar fantasioso para com o mundo.

Em uma narrativa que passeia pelo cotidiano de um simples menino, o quadrinista consegue retratar uma realidade de humildade com um toque de crítica social. Aos olhos da criança, notamos policiais corruptos, enxergamos a pobreza do bairro e até nos deparamos com uma inesperada morte. É de uma simplicidade singular, que não apela para grandes narrativas para comover o leitor.

Esta é, na verdade, uma característica já conhecida de Roger, que, através de sua obra anterior, “Não tenho uma arma”, trouxe uma fábula focada na relação mãe e filho, deixando as nuances de um mundo apocalíptico como pano de fundo de uma trama humana e delicada.

É quando se apropria do imaginário cultural da La Ursa que Roger faz “Aterro” brilhar. O elemento traz uma certa aura fabulosa para a história, provocando até a memória afetiva do próprio leitor, que abraça a referência ao folclore nacional e ao personagem do Carnaval pernambucano.

Com propriedade, Roger imprime movimento ao quadrinho, trazendo, como sempre, um exemplar entendimento sequencial. Isso fica completamente claro no segmento final, que promete surpreender e sensibilizar. “Aterro”, afinal, é toda sobre isso: a sensibilidade da infância, um olhar leve sobre uma realidade dura, mas que, aos olhos de uma criança, vem cheia de possibilidades.

"Aterro" é a segunda HQ de Roger, vindo depois da apocalíptica "Não tenho uma arma" - Crédito: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco


 

   Entrevista // Roger Vieira (quadrinista)

Como sua infância influenciou essa HQ? Quais foram os principais elementos que você buscou explorar na história?
Pensei em frases que ouvia da minha família, na rua.. .coisa que eu via acontecer também. Os lugares e situações que vivi entre Olinda e Paulista me trouxeram muitas recordações.

Quando foi que você percebeu que queria trazer um pouco da sua infância para o universo das HQs?
Faz um tempo, mas ainda não tinha encontrado uma maneira de contar. Coisa de soluções gráficas e narrativas que pra mim são essenciais.

Como primeira HQ "autobiográfica", foi mais fácil ou não de montar a narrativa e expôr essa história?
Ela não é exatamente autobiográfica, eu diria que tem elementos autobiográficos. Tive um maior trabalho na hora de resgatar histórias de épocas diferentes e fazer parecer que aconteceram no mesmo período, além de misturá-las.

veja também

comentários

comece o dia bem informado: