A família de Luiz Cauã comemora hoje o Dia das Crianças, o aniversário do menino e um ano de um transplante bem sucedido
A família de Luiz Cauã comemora hoje o Dia das Crianças, o aniversário do menino e um ano de um transplante bem sucedidoFoto: Brenda Alcântara

Uma tripla comemoração. É assim que a família de Luiz Cauã, 10 anos, festeja o mês de outubro este ano. Além do Dia das Crianças, nesta quinta-feira (12), e o aniversário do menino, comemorado nesta sexta-feira (13), há também a celebração do primeiro ano de um transplante que trouxe vida nova para todos. Cauã, que desde o nascimento convivia com a aplasia medular - doença que faz com que a medula óssea não funcione - esperava havia seis anos por um doador compatível. Até que a ajuda chegou de uma doadora do Rio de Janeiro, devolvendo-lhe a rotina de uma infância comum.

A história de medo e expectativa de Cauã já teve um final feliz. Contudo, a realidade ainda é sofrida para outras 28 crianças e adolescentes pernambucanos que estão à espera de um órgão. Meninos e meninas de zero a 17 anos compõem a lista pediátrica em busca de fígado, rim, córnea e medula. Se no caso dos adultos, não raro, há demora para um desfecho positivo, no público infanto-juvenil os complicadores se multiplicam.

Vão de um número maior de recusa de doações à necessidade de órgãos de tamanhos compatíveis com os pequenos pacientes. A coordenadora da Central de Transplantes de Pernambuco, Noemy Gomes, confirma que o trabalho da instituição é ainda mais delicado quando se trata de um caso pediátrico.

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“A constatação do falecimento da criança e a aceitação de que ela está em morte cerebral é muito complicada”, afirma. “A entrevista familiar é muito difícil, não só para a família como também para a os profissionais da assistência. A questão emocional é muito pesada quando lidamos com esse público”, apontou.

Isso acontece porque muitos óbitos entre os menores estão relacionados a tragédias inesperadas, como quedas, afogamentos e acidentes domésticos, onde pais e responsáveis acabam se culpando pela fatalidade. Existem ainda os casos de violência doméstica. Por esses motivos, muitos pais tendem a recusar a doação.

“Dificilmente estamos diante de uma criança que já vem de uma história de doença, de longo tempo de internação. Por isso, quando há o diagnóstico da morte cerebral a família resiste mais em pensar na ajuda que pode dar a outros”, comentou Noemy.

Mesmo quando há o consentimento dos parentes do doador, a tarefa de viabilizar o transplante não é fácil. “O principal desafio é a compatibilidade com relação a peso e altura. No transplante pediátrico essa questão pesa muito mais. O órgão tem que caber no tórax ou no abdômen do receptor”, explicou.

Em 2016, os doadores menores de 18 anos representaram apenas 12% do universo total de 140 doadores. Noemy Gomes explicou que, de forma geral, o sistema prioriza o doador pediátrico para um receptor pediátrico. No entanto, se há compatibilidade de peso e altura, é possível que uma criança acabe também listada no ranking de adultos.

Foi assim, por exemplo, que Arthur Armede, 9 anos, foi salvo. Depois de um ano e quatro meses esperando um coração que não chegava de um doador infantil, o telefone tocou. A ajuda veio de um adulto na faixa etária dos 30 anos, porém magro e baixinho. Foi o herói do pequeno alagoano que estava internado no Real Hospital Português (RHP) havia quase cinco meses.

“Receber a notícia que meu filho precisava de um transplante de coração foi um choque, mas graças a esse doador anônimo estou com meu filho vivo, brincando, correndo, feliz, isso apenas cinco meses após a cirurgia. Agora sim ele é uma criança completa na sua essência”, emociona-se a mãe, Angélica Melo, 28.

O passado de um menino sem forças e folego ficou para trás. A recuperação das crianças e a adaptação aos novos órgãos têm se mostrado surpreendente em vários casos.

É o que aconteceu com o aniversariante Luiz Cauã. Ativo, brincalhão, vaidoso, e agora também corado e gordinho, para a felicidade da mãe Shirlene Pereira, 34 anos, e do pai Ronaldo Pereira, 38. “Foi muito difícil para nós. Desde muito novinho tivemos que enfrentar a doença. E foram muitos anos tomando sangue todo mês”, contou o pai.

A mãe vivia aos sobressaltos com os altos e baixos em todos esses anos. Sem doadores compatíveis entre os parentes, Cauã, quando tinha dois anos, passou por um transplante de células de cordão umbilical vindas dos Estados Unidos. Mas a comemoração durou pouco. O procedimento não vingou, levando-o de volta para a fila. E lá se foram seis anos.

A espera teve fim graças a uma carioca, de 33 anos. “Só tenho que agradecer a ela. Agradecer muito”, emociona-se Shirlene. Cauã, que se prepara para renovar a caderneta de vacinação nas próximas semanas - procedimento padrão após transplante medular -, ainda precisa usar máscara de proteção. Item que em breve não fará mais parte das suas fotografias de infância.

A família de Luiz Cauã comemora hoje o Dia das Crianças, o aniversário do menino e um ano de um transplante bem sucedido
A família de Luiz Cauã comemora hoje o Dia das Crianças, o aniversário do menino e um ano de um transplante bem sucedidoFoto: Brenda Alcântara
Arthur Armede, 9 anos, recebeu o coração de um adulto na faixa etária dos 30 anos
Arthur Armede, 9 anos, recebeu o coração de um adulto na faixa etária dos 30 anosFoto: Henrique Araújo
Luiz, de 10 anos, foi diagnosticado com um problema no sangue desde o primeiro mês de vida
Luiz, de 10 anos, foi diagnosticado com um problema no sangue desde o primeiro mês de vidaFoto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

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